sábado, 9 de julho de 2011

Passamento

Escutava os chamados, colocava Hendrix e Vinicius na vitrola, depois de um ou dois baseados.
Corria pela terra roxa e voltava, ouvia as reclamações e pensava viajar o mundo. Coloquei no prato uma meia dúzia de ideias  e sonhos, engoli seco na vida. Jovem demais.
Senta aqui, me deixa contar o que vi, esta frio, congelando, igual aquela noite.
Há anos, tudo dava errado.
Era uma cara comum. Sofri de amores, vi mulheres me renegando, mas você foi a pior delas.
E se um dia pensei e deixei de acreditar na existência de toda a banalidade amorosa que escutei nas canções, quando te conheci eu soube.
Se todas as juras, não me fizessem ficar e todo meu eu me dissesse para fugir...
Sua boca, carinho hipócrita, me manteve preso, cercado por esses muros de falsidade.
Deitei na sua cama aquele dia, teu choro me prendeu,  suas palavras de confiança me disseram que era amor. O mesmo lençol, de outros.
Mas tudo bem, essa deveria ser mais uma das vezes que nos esquecemos do que foi e convivíamos com o momento.
“Eu não quero mais” , como é grande essa mentira,  poderia fingir acreditar, para variar, um pouco, para mudar. Engano-me.
Bem que  me avisei, mas fui para ver, o quanto era grande meu engano.
Faço dos meus, um drama. Acho que não sei viver.
Coloco treze e poucas  pedras no caminho e fico sentado, com medo de tropeçar em meus obstáculos.
Criei passos, dias, meses, essa cidade tão cinza, como nós. Criei amores novos, fingi naturalidade, formalidade, desapego.
Não quis te convencer e onde parei... Achei que tudo assim, enfim, ficaria calmo, talvez. E mudei. 
O que me tornei? Vazio.  Sou frio, calculo meu tempo, pensando em mim. Sou banal, descrente, me sinto sabotado por eles.
Há tanta confusão, tanto rancor.
Pensei não existir nada além, linearidade, estabilidade, inexistentes. Eu bicho, me sinto hoje, assim, um animal, extinto e só.
Meu egoísmo grita, mais uma vez, nunca fui tão solitário, estive em outros braços, lábios distintos.
Gritei : “corre, corre.” , mas cai, em queda livre.
Quis vida e você me tirou. E se não tirou, sou dono do meu.
Uma cartela e meia com um bocado de whisky.


quinta-feira, 23 de junho de 2011

Se acendia

Um pouco de amor e outras drogas.
Roupas e falas espalhadas, vontade sem avisar.
Par de palavras desligadas. Um baú de pinus gasto.
Tudo como nunca foi, ela sorri, meia luz.
Metade do caminho, fios de coração. Um terço de suspiros.
Vestido colorido e cabelo bagunçado. Distância do ar de São Paulo.
Observa do alto, vento e tempestade que chegam, com aparência de 30. Tabaco, copo na mão e apaga o som.
Terra seca, sexo frágil. Olhe bem, será tão frágil meu bem?  
Com vermelho de Iansã e com canto para ouvir. Mais forte.
E um dia disseram, que era de se acostumar. 
Comunicação e bocas. Corpos e risos. Misturas.
De vida e amor, difícil completar.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Human race


A tal formalidade, inexistente, de bichos.
Incansável busca, desenfreada, que vale tanto para muitos, mas, é tão pouco.
Ando em passos largos, mas lentos, na repetição dos dias, nos meses iguais. 
E não muda, não mudo. Essa minha estagnação, meu correr que se estende em palavras e pensamentos, apenas.
Essa justificativa popular, que esta é a ordem  inevitável, a tão falada natureza humana, me rompe em vontade de gritar.
Desculpas, para o egoísmo mais que particular, muito mais que posse única.
Vasculham, em qualquer meio, para tentar explicar porque suas mentes se restringem ao que enxergam, ou ao que ensinam e que evidenciam em suas cabeças formuladas, fracas, programadas. 
Preenchem suas respostas com ideologias furadas, preceitos religiosos inquestionáveis. Até que ponto? Em qual fim?
Critico demais, pareço tola. É, não me importo, ou, me importo demais. 

domingo, 29 de maio de 2011

Reflexivo



Esse próprio eu, somente meu, que não saberiam extrair.
Descobre e se entende
Estimo acertar com os meus. Vasculho o que desvende. 
Ao fim, dentro, linhas sem ponto. Chegadas sem encontro.
O dia que encontrar, assim, enfim, cuidarei das próprias perdições.





domingo, 15 de maio de 2011

Natural existência


O colapso de um sistema, contudo todos dependem. Circulação, batimentos, os movimentos cessam porque precisam dele. Lapso em vida. Erro de uma era surrealista, intocável.
O belo de um simples, que ninguém enxerga. De um jogo de palavras que invadem e enganam. Mais do que sobra, do que realmente é.
Um sonho que tive, pedaços de fogo tocavam minhas mãos, em cubos, sussurros me pediam que atirasse contra o incerto. O bate pronto é mais fácil em um mundo entregue, em mãos que não constroem mais nada.
Os motivos ficam avulsos aqui, não conseguem levantar. O olho do mundo, é cego. O pedaço deles, é surdo. E a verdade, assim, permanece muda.
Tentei encontrar um motivo, um mapa que levasse onde nunca chegaram, sempre, desisto fácil, me torno repetitiva. É uma cópia de uma outra, que nunca foi a única. 
Criam um passado de acordo com o que querem, quem contou? Quem sabe? Tentam prever, achar uma continuação do presente imperfeito. Tão imperfeito, mas bem provável. A incerteza de nossa fiel natureza.
Continuo e tento fingir, arrancar as falsas possibilidades, a vida como é. E ela como é? Insuficiente tal para a descoberta.
Fico metade, entre o conjunto cheio e vazio, fico na espera do alcance.

domingo, 8 de maio de 2011

Dois em um




Olhar como te olho, admirar como admiro, sua calma, o amor que nos da, a força que tem. Me criou e aceitou minhas mudanças , porque apenas amor como esse é capaz.
A menina com tanta coragem, que agora mulher completa e mais forte, chegou ao caos, veio ao desconhecido, porque sabia que por nós era capaz. Por mim, meu irmão, por ele.  E mesmo vaga, em lembrança alguma, te vejo fraquejar ou desistir. Momento algum falhou, muito pelo contrário, soube como ninguém.
Apenas você sabe completar o vazio que repentino me toma, quando penso, olho o mundo ao meu redor e me decepciono, percebo que nada tem as cores da minha infância, lembro que ainda existe alguém aqui, que trilhou um caminho e permanece pura,  quando sorri e aperta os olhos, posso ver , quando toca minhas mãos e sentimos a nossa troca, entendo, permaneço e continuo. Porque por nós, você continua.
Não lhe desejo nada descartável, merece muito, mas não o muito diante os olhos dos vazios e superficiais.
Dizer, "amo você", é pequeno, o nosso é infinito. O quão feliz eu sou por te ter, é infindo. Nós somos. 

domingo, 17 de abril de 2011

O velho e o moço

Para ele, um tempo passado, que agora parado, tenta entender :

“Pouco, muito do pouco. Pequeno diante amplitude do que vejo, mas não do que fui. Do que penso e não do que falo. E se em enorme quantidade pudesse traduzir e reproduzir o muito que se torna pouco, talvez encontraria o que perdi.
Em minhas vontades sem fim, ideias que um dia foram reais, hoje desperdiçadas, deixei qualquer imagem se perder, não existe espaço, nem tempo. 
E assim, vivo e tento,espero e esperei que esqueça, que um dia, deixei de lado minha humanidade.”

sábado, 26 de março de 2011

Tabacaria



Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...

Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(..)

 (Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

(..)

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

 (..)

 

Álvaro de Campos, 15-1-1928

domingo, 13 de março de 2011

De onde vem a calma



Esse toque, carinho, que não existe sofrimento, nem punição. Minha calma tal, por enquanto não tem fim, sem desespero em buscar.
Bate luz no meu espelho, espalha pelo quarto, tudo se torna tão maior e de alguma maneira, essa paz, me fez acreditar que o meu desejo se iguala ao teu.
Incrível como pareço outro alguém, com menos temor, desmedida tranquilidade e assim em tempo igual, um tanto de calafrios, por ânsia e inquietação.
Faço-me assim e me pego pensando no amanhã. Paro. Decido viver o que chamam de tempo e por sinal, anda curto pelos espaços. Não existe metade ou parte para questionamentos ruins. Prefiro encontrar e preencher, se há algo que falte, o que acho difícil.
Quem sabe? Quem saberá?
Parece tolo acreditar, que tão rápido pode acontecer, mas não quero explicação, nem tradução de escritores do amor.
Saudade não é prova de nada, talvez a causa de tudo. Vontade de alguém, como você, não me falta e nem restringe, motiva.
Aquele fevereiro que te trouxe até mim e agora março, que deixo para mais tarde com um novo, me mostra e me encanta.

“Ah vai, me diz o que é o sossego
Que eu te mostro alguém afim de te acompanhar
E se o tempo for te levar
Eu sigo essa hora e pego carona pra te acompanhar”

quinta-feira, 10 de março de 2011

Eclodindo e assim vai.



Na maior parte do tempo atento fora, de mim, sem porque, falo, penso, se assim posso chamar e me coloco no automático. Me mantenho em paralelo. Passa horas frente, inventada, atitude mental e não física.
Canso mas me calo, quero agir e paro, qualquer grito ou fala, engulo seco, derrapa pelo rosto água, salgada. Perdem-se no chão, sorrisos, ideologias, mudança.
Tento me chamar, sempre me perco, nunca me acho, volto atrás. Busco, procuro manter pouco, mas não admito, nunca, coloco meus clichês em baixo do braço e finjo normalidade, formalidade com a sociedade, simpatia com a paciência , que não tenho.
Frases do sangue que guardo e não manifesto. Que arde no corpo e gela a pele. Corre descontrolado e perde o ritmo.
Rasgo meu temor, planejo, vivo e levo , empurro, me despeço. Me preocupo, desperto na manhã quente e com relógio de repetição, tic tac, tic tac, passa o tempo, quem inventou a hora? Não vivemos, sobrevivemos, somente. Olho o sol, é uma bomba, queima a pele, mas não foi ele que inventou, foi o homem. Moderno? Que banal, modernidade não é nada perto do retrocesso mental.
Buum, buum, pânico na cidade, a policia persegue o estudante, o bandido luta contra ferramenta social, o burguês descontrolado, o morador de rua , cachaça.
Teorias, terapias, conturbações orgânicas, caos urbano, matança no campo. Para onde? Para que? Pensa, pensa, pensa...Volto e esfaleço em pó, sem resposta. Sem questão, mentira, realidade, pouco caso, pequeno apático, cidadão em questão, mas quem habita? Querem  sistema, controle, perdição, desigual, banal. Liberdade? Onde fica a casa da importância?








domingo, 27 de fevereiro de 2011

Agora era fatal, que o faz-de-conta terminasse assim.


Busquei me completar e no desenfreio, sem querer, entrei em algum beco sem sentido, com volta programada.
Tentei achar em outro o que deveria manter desacompanhada, sem condição de ajuda, nula.
Não percebi e desperdicei dentro de mim, aquilo que um dia tentou ir embora, mas voltou. Realmente? Sempre fez parte do inteiro.
Joguei aos animais que ainda rugem inteiramente nas veias, no sangue, não mais quente, agora frio, pouco que ainda restava do passado, não conseguiram devorar, o gosto é descontroladamente forte.
Calei , como se pudesse de alguma forma me tornar indiferente ao que sinto, mas nunca, apenas ignorei.
Sem conseguir levar-me onde quero estar, abro essas portas, fito os corredores e tenho medo de sair. Mantenho-me aqui há anos, sem diferenças, assim, sem fim.
Converso com roupas amassadas, seus relógios travados, disperso, sem atenção, sem condição de lembrar.
Escuto você me colocar no colo e acalmar:
“Agora eu era o rei, era o bedel e era também juiz e pela minha lei, a gente era obrigado a ser feliz. E você era a princesa que eu fiz coroar....Vem, me dê a mão, a gente agora já não tinha medo, no tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido...”
Desenho frestas dos olhos, de quem, observa de longe e sinto saudade, do único, que um dia, chamei de meu, aquele que me deu vida.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Mutável.



Pensei que me proteger bastaria para manter a insanidade que tanto me fascina.
Evitei discursos prontos, repetições, padrões. Inútil no meu ambiente, na minha mente.
Banal foi a vida comum, o cidadão inconsciente, contraditório, a importância do Nada na sociedade, com "N" maiúsculo, como outros tais que para garantir superioridade se auto-intitulam. O Nada que desaparece, no mundo onde a prioridade é o próprio nada.
Fugi como alguém covarde ou como presa ágil, que corre do predador.
Lutei de frente, de cara com o monstro cotidiano.
Mas um dia se cansa e aprende, olha com desdém. Porradas mentais, um ringue de telequete invandindo teu dia, apenas encenação, mas querem te derrubar, arranhões.
Algumas horas se passam, quer entrar e não sair, como nos filmes, onde as drogas te alucinam para aliviar teus pensamentos, ou os aceleram mais para te tornar alguem melhor. Se lembra que aqui , a vida é real. Nada é absoluto como em uma historia.
Te levar daqui, mas vai pagar o preço, não sabe? Esqueceu que anda acorrentando ? Desde que me lembro, nasci e me prendi.
Tropeço em minhas letras, os versos são tortos, o que gira torna-se desfigurado. Esse que vivemos.
A neblina cobre meus passos, mas a luz que escorre pelos cantos, no asfalto da cidade e no reflexo do espelho, guia meu caminho. Qual rumo?
Desperta, no complexo ambiente que vive, tenta se encaixar, poucas verdades, muita confusão. Adormece no colo da insanidade, poucas tentativas, muitas vontades, infinitas frustações.
Saberia o movimento do  pulmão , o pulso da respiração e o afobamento do sangue em correr se retirasse todos teus questionamentos e verdades absolutas.
Algum dia prometi a minha mesma ser com  meus ossos e carne, imutável. Mas ser quem eu fui, quem sou e quem nunca fui me cansou.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Só esse teu olhar

Me faz me traz
Te busco no fundo
Me pega no ar
Te levo para longe



No íntimo desse olhar, de perto, difícil de desvendar, repleto de enigmas que procuro alcançar.
Conheço pouco, tal consegue me fazer pensar.
Um tanto de meias palavras, mal formuladas, tentam nos perder nos sons das próprias bocas.
Viajo no tom da sua voz e me pego olhando para sua pele, acariciando teus braços.
Cesso o tempo para você não se esquivar, forço os pés no chão para ficar.
Deito e adormeço querendo te encontrar, desejo tão maior, sinto teus cabelos, teu cheiro de perto.
Acordo, lembro, vem me procurar, descobrir, me moldar.


"De longe,vejo o traço do teu sorriso,que esconde teu singelo paraíso"


segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

La Belle Verte





Texto que deu origem ao filme "La Belle Verte" de Coline Serreau.
(O importante é o sentido do texto)
“Il est minuit, la ville dort, je me mets à entendre le silence.
Je ne suis pas mystique, je n’entends pas des voix et ne fais pas du pathos avec les petits oiseaux cuicuicui, j’ai simplement eu ce soir-là l’expérience concrète, difficile à traduire en mots, de mon lien avec ce qu’on appelle l’inanimé, le végétal. J’ai compris là, dans la solitude de cette nuit, que s’il existait une “âme”, les arbres et nous avions rigoureusement la même”.
Je crois que je suis seule, mais un bruit léger me frappe les oreilles, un bruissement, comme une parole : en face de moi, un grand arbre balance doucement ses jeunes feuilles dans l’air de la nuit. Il a trois branches principales qui se rapprochent, s’éloignent, se groupent par 2, puis par 3, se cognent légèrement, oscillent avec une amplitude limitée en bas, majestueuse en haut.
Les feuilles sont animées de leur propre mouvement à l’intérieur du balancement général, leurs faces mates et brillantes s’allument et s’éteignent alternativement. Je regarde l’arbre entier, son agitation calme, sa réactivité immédiate à la moindre caresse de l’air et j’oublie tout.
Le taxi, l’hôtel, les soucis, le scénario, les anticipations négatives et positives n’existent plus, un calme incroyable s’empare de moi, tout se détend, je ne suis qu’ici et maintenant plongée dans le mouvement de cet arbre, délice.
Je ne sais pas combien de temps a duré le dialogue avec l’arbre, mais j’ai eu le sentiment de communiquer avec lui et qu’il était un être en vie qui m’envoyait sous forme de vibration une information que j’avais reçue.
"É meia-noite, a cidade dorme, começo ouvir o silêncio.
Eu não sou mística,  não ouço vozes e não me emociono com o canto das aves, eu tive esta noite, a experiência real, difícil de colocar em palavras...a minha relação com este seres que chamamos de inanimados, as plantas.
Compreendi que existe na solidão da noite, como se houvesse uma "alma" e as árvores e nós temos exatamente a mesma.
Eu acho que estou sozinha, mas um som fraco me impressionou os ouvidos, um ruído, como uma palavra: diante de mim, uma grande árvore balançando, suavemente, no jovem ar da noite. Ela tem três ramos principais que estão perto, são agrupados por 2, depois 3, batem ligeiramente, oscilam com uma amplitude limitada abaixo e acima majestosamente. As folhas são motivadas por seu próprio movimento, como rostos brilhantes que desligam-se  alternadamente.
Eu olho para a árvore inteira, sacudindo a calma...é sua reação imediata à mínima carícia do ar e eu esqueço tudo. O táxi, hotel, as preocupações, as histórias, as expectativas positivas e negativas, não existem mais,uma calma incrivel agarra-me , relaxo, estou aqui agora e mergulho no movimento desta árvore de deleite. Eu não sei quanto tempo durou o diálogo com a árvore, mas eu tive a sensação de contato com ela, como se fosse  uma pessoa viva me enviando um formulário de informações  e de vibrações que nunca possui."


Muito mais profundo, esse texto representa para mim mais que toda banalidade de discursos ecológicos.
A autora consegue colocar em palavras aquilo que sinto.
Realmente existe tamanha diferença entre nós humanos, outros animais e seres vivos?
A resposta é não, sem dúvida e a encontro no documentário  "Earthlings" (Terráqueos) :
"Terráqueo: substantivo , habitante da terra.
Já que todos habitamos a terra, somo todos considerados terráqueos.
Não há discriminação de sexo, raça ou espécie no termo terráqueo.
O termo inclui cada um e todos nós.
Mamíferos, vertebrados, invertebrados de sangue quente ou frio.
Passáros, reptéis, anfibios, peixes e humanos, igualmente.
Os humanos, portanto, não sendo a única espécie do planeta, compartilham esse mundo com milhões
 de outras criaturas vivas, já que todos evoluimos aqui juntos.
Contudo é o terráqueo humano que tende a dominar a Terra, frequentemente tratando outros terráqueose seres vivos como meros objetos..."


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Me reviro na cama, leve , me escuta , baixinho :
- Tua estrada não percorre mais a minha, agora que sei, que os pedais estão represados, como um pulmão doente e aonde chega teus atalhos de pedra.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Passeio No Mundo Livre



Desata o verso, quero ouvir , cabeça vazia, moinhos com pausas coordenadas pelo pouco que consigo entender.
Visão escura, mente aberta, mal limpa, pouco trabalhada, com pouco, a saber, pouco, a restar. Conta-me, me leva e explica porque.
Entrei em êxtase, meu corpo pede água, mundo este, ou aquele outro e penetro no vazio, encontro e não identifico. Talvez não entenda minha condição, o que torna diferente ou indiferente.
 Com a bebida presa nas mãos, o sol queima a pele, cigarros, passado, penso no futuro,  deixo para depois. Prossigo, tomo um gole, dois, quente. Mais uma dose, me faz esquecer, traz mais pra te lembrar.
Pego   consciência, é difícil me explicar,o que me faz assim, já foi um dia o que me fez estagnar.
Corro por pouco, ando por muito, calo e consinto.
Lembrei-me dos tambores, soavam os apitos, a massa gritava por desordem, eles queriam caos. Caos que nos leva a ordem, ordem que não nos leva a nenhuma verdadeira satisfação. Pouca essa que exigem, sistema nenhum é capacitado suficiente para comportar a imensa desenvoltura  humana tão mal aproveitada.
Chamo de mundo livre aquele que não é absoluto,  mas aquele que não fixa, muda, te faz pensar que a existência não é para poucos, mas é para todos.Existir é muito mais que sobreviver, muito mais que possuir.Não é de meu critério dizer o que significa tal para a grande maioria,mas deixo que minha mente caminhe assim.
Segui os passos, mas pouco perto do que andarei. Levei o conto de quando criança, para saber me explicar. Lavei o que chamam de alma, quando , apenas, libertei a mente.


quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

O início foi incerto, confuso e incomum.

"Moça, Olha só, o que eu te escrevi.É preciso força pra sonhar e perceber que a estrada vai além do que se vê"

A distância entre os corpos chora um alto tom amedrontado, pouco, mas não adianta correr, porque o que resta vai atrás.
Minha mão deslizando da sua, seus olhos longe, os meus desviados, vontades. Antes fosse assim, com contato, mesmo que frio.
O dia manteve-se em calmaria, exagerada. Nem um toque, suspiro algum, sem ligações.
Não sou espécie alguma de cigana, mas sei para onde esquiva esse tempo.
Tento aliviar, mesmo sabendo que não resolveria tentar mudar o que estagnou.
Os meus anéis batem inquietos na mesa da sala, um seguido do outro, essa ansiedade me impede de comer, dormir ou imaginar o que esta fazendo enquanto estou aqui. Olho para minhas mãos, a prata de tua aliança me preocupa, me prende.
Não faz essa dor, lança um sorriso aberto, mesmo que não para mim. Dou-te vida se quiser, mas não minha, sua, com teus poemas, suas músicas, seus cheiros. Senti vontade de te colocar de frente para o mundo, mas não posso, pernas são tuas.
Não preciso dizer que amo, é evidente demais. Apenas sei.
Sua bicicleta percorre essas ruas de pedra, observo da janela os pedais fundos, procuro não imaginar em qual estrada vai terminar. Julga-me nas suas manhãs pelo cargo que não cabe a ninguém?Sussurra em teu silêncio, mas escuto de longe.
Palavras escassas, quase sem som, apenas, pensamentos em frações de furacões, como alguém que se encontra  perdido, sem rumo.
Muitas vezes a incerteza movimenta como combustível, mas sou humana, preciso de pequenos traços concretos.
Talvez o apartamento em nossa avenida, com nossa cama, tuas roupas e meus armários, não estejam mais parados, nos esperando.
Não cabe a mim, nem a você saber, naõ digo ao amor,mas cabe a vida, ao tempo. 

"Eu escrevo e te conto o que eu vi e me mostro de lá pra você,guarde um sonho bom pra mim."

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

É não ser quase nada


Do horizonte enxergo altas colunas,me lembram filmes gregos,mas são modernas.Vejo rostos,conhecidos,desconhecidos,pessoas que eu nunca tive contato algum,mas sei quem são.
Ando entre os espaços,escuto vozes,música alta,tambores,as pessoas tomam vinho,comem frutas,fazem sexo,estudam historia,refletem,usam filosofia,discutem os problemas que os levaram a mudança.
Os homens tratam as mulheres como amantes e não objetos,assim como mulheres tratam os homens,homens tratam homens,mulheres tratam mulheres.Livres.
Outros optaram pela ignorância, prisão mental e não é o suficiente viver nesse lugar,onde notei,que humanos vivem para seus semelhantes.
Um muro separa estes dois mundos,uma barreira foi travada entre o norte e o sul,um lado caminha para decadência mesmo achando que estão em constante progresso,o outro preocupa-se mais com a construção humana,mental e em alguns casos, espiritual,mas agora,não cabe a mim julgar se há lado correto.
Na montanha,deito,céu,nuvens escuras pela metade,carregadas de gases intragáveis,meu arco,flecha,atiro para atingir a nuvem certa,toxinas caem em mim,me tiram o ar.Um pouco a esquerda,as nuvens são claras,para salvar,lanço outra flecha,as gotas limpas me fazem respirar.
Em qual viver?Posso ter a maravilhosa magia de escolha para esquecer por qual motivo passo de oito a mais horas sentada na cadeira fria do escritório,uma imagem me remete,eu me encharcando de cafés ,cigarros,drogas em dias sem fim.Vem a contradição,quando observo pilhas de lixo que foram acumuladas naquela região,que é proporcional a atitude dos homens-mortos que habitam.
Os sulistas são tratados como ingênuos, tolos, mas os habitantes sabem por qual motivo fizeram tais opções, que não são motivos lançados fora,vivem o mundo real,não artificial,este lado é tão claro,que mal consigo entender como consegue ser tão simples e delicioso.
Acordo,apenas um sonho,que mostra o que comporta aqui dentro,um pico de realidade entra em minhas veias,noto que posso viver minha maneira,mas nunca,deixarei de habitar o mundo dos falsos progressos.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Eu gosto mesmo é de vida real.



Aqui na cadeira,a janela aberta com o vento dessa noite fresca imagino um pouco de sonhos coloridos e dementes,mas místicos,tudo que sei.
Um balão amarelo legível com a palavra “shame”,voando em nuvens coloridas com passos fundos de um dia comum.Shame,poderia representar milhões de pedaços da sua mente,vergonha,pena,remorso.Qual destes é o que sente?Vergonha do mundo?Remorso pelas pessoas ou pena daqueles que não conseguem ser como nós?
Você,um pouco de mim,um pouco deles,com inaceitação do obscuro e perverso sob este ponto de vista,cheguei a concluir que grãos minúsculos de uma Terra gigantesca conseguem pensar e imaginar o mundo assim.
Escrevo hoje porque o colorido invadiu,não entendo de que maneira,mas por acaso,ou acaso algum.Talvez seja assim que funcione,observando e entendendo pontos opostos de visão,que desembocam no mesmo riacho,limpo,no meio da mata.
Acho graça quando penso em um olhar puro,convencido que consegue por algum motivo sólido mudar.Graça,porque acho pouco.
Desejo por onde começar,por onde ir e me guiar.Não posso me perder,nem nas sombras da realidade mascarada,nem sumir na poeira mal  varrida de vibrações pouco iluminadas.
Não penso como robô,não vivo como tal,não desejo “status quo” e meras atitudes,pouco me importa um olhar de mundo que não é o olhar de um poeta,pouco importa para o que muito importa para o todo.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O Buraco Do Espelho

  o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar aqui
com um olho aberto, outro acordado
no lado de lá onde eu caí
pro lado de cá não tem acesso
mesmo que me chamem pelo nome
mesmo que admitam meu regresso
toda vez que eu vou a porta some
a janela some na parede
a palavra de água se dissolve
na palavra sede, a boca cede
antes de falar, e não se ouve
já tentei dormir a noite inteira
quatro, cinco, seis da madrugada
vou ficar ali nessa cadeira
uma orelha alerta, outra ligada
o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar agora
fui pelo abandono abandonado
aqui dentro do lado de fora







sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Nada mais é preciso:


Quando desço essas ruas com baques de frios na barriga e mãos inquietas,eu percebo que existem ainda muitos motivos para continuar olhando para o dia seguinte como mais um ultrapassado.
Não sei aonde pretendo chegar ou se vou chegar,mas quando sento nesta calçada como agora,sozinha e observo cada pessoa passando,vejo nos olhos e gestos de cada ser humano que existe algum motivo concreto,mesmo que distante,para eles estarem aqui,sobrevivendo.
Eu senti algumas pessoas ao meu redor que se assemelham a mim,são jovens e tocam violões como se fosse a ultima nota trabalhada,com uma vibração forte que não se restringe a chegar ao ouvidos de quem escuta de perto,mas do outro lado da rua percebo pessoas observando para saber de onde vem o som.
A música me levou longe,é estranho perceber o mundo dessa maneira,eu tive uma única visão, agora este se elevou a tantos outros que eu nem consigo encaixar todas as peças em minha mente,são complexos,olhares distintos.
Eu gosto de pessoas,de toques,do cheiro da rua,mesmo poluída,mesmo decadente,mesmo tão suja por pensamentos alheios.Prefiro observar estes animais sozinha,como alguém que estuda uma nova raça,a única diferença é que essa,já é bem conhecida por nós e por outros seres que constantemente sofrem os ataques desses terráqueos tão evoluídos...
A noite chega,é muito mais atraente,tudo funciona melhor,não pelo fato de estar nessa cidade cheia de bares e luzes fascinantes com boêmios e a possível coragem de trabalhadores cansados,mas a  noite em cada canto é muito mais bonita que o dia,talvez porque a noite esconda as decomposições.
 A avenida movimentada buzina gritos horrorosos de seres que não se suportam,de maquinas trabalhadas e muito bem programadas.Lembro-me de filmes da minha infância,onde falsos super heróis agiam inusitadamente e salvavam o planeta e é minha vontade,salvar,um lugar onde caminha para o desastre,para o fim.Não falo somente do homem agindo sobre o meio,mas sobre tudo, toda a ruína que estamos construindo,mentalmente e em nosso porte,mas nós que somos estes homens da força.
Próximo a essa avenida há uma pichação muito sensata:”O herói é aquele que não teve tempo de correr”.
Ao contrario do que parece,amo muito o que me cerca,amo muito esse mundo,a vida e de tanto amar temo e conheço seus defeitos,que são incontáveis.
Me escrever e descrever vocês em um pedaço de papel nos faz tornar a existência mera banalidade,pouca coisa,um pedaço,amassado e sujo.
A importância de viver é tão grande,que perco o motivo para achar o principal fato de vida.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Where is my mind.


O sons que ecoam em meus ouvidos são tão fortes,que posso reviver.

Observei o lado B da cidade,essa era a parte que eu costumava admirar, passado alguns anos desaprendi amar daquela maneira,mas aquela manhã me fazia esquecer qualquer banalidade que haviam transformado.
Era um dia comum,mesmo com ultimas noites mal dormidas,em leituras e viagens sem fim,o meu corpo havia se acostumado.Eu não gostava daquela solidão,mas o tempo e as circunstâncias fizeram o papel de me tornar alguém indiferente.O pequeno apartamento,com sala,cozinha e quarto juntos,se tornara grande para mim,mas eu não me importava mais.
Transformaram minhas ânsias em vontades jogadas em lugar nenhum,me disseram que a vida se encarregaria de mostrar quem vence...E dessa vez foram eles,não eu.
Peguei a xícara,servi o chá amargo,cinzeiro,a cigarrilha,o cigarro,isqueiro,o fogo.Quase como um ritual,sem fim algum e assim repetia-se.
O dinheiro estava escasso,eu nunca compreendi como tal pode comprar comida e amor,mas aceitei e andei precisando.O mundo calou meus questionamentos,decretou silêncio diante o público.Foi-se o tempo que andei sem destino,convencendo e amando pessoas.Agora eu era apenas mais uma,mais uma peça aterrada no jogo,escalada a cumprir meu papel teatral,sempre foi assim,eu que acreditava não ser.
De repente ouvi um esmurro na porta,e a campainha irritante tocou,a porta estava destrancada,”entre logo” ,pensei.Entrou,franziu o nariz,o cheiro de comida estragada deveria estar incomodando.
-Você não se cansa?Quanto tempo não a vejo?
Eu continuei apoiada com a cabeça na mesa,senti raiva.
O som da minha respiração aumentou,ela gritava,com força,chegava ao meus ouvidos como agulhas embebidas em álcool,meu estômago revirou,eu parecia uma doente.Ela me chamou de doente.
-Eu não aceitarei,se não é este que me transformou no que sou,fui eu que o transformei e mascarei com sombras.Estou podre,como o resto da humanidade,como você.
Era minha consciência tentando me executar.