quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Hoje é quarta-feira e essa mediocridade me enoja. Hoje é quarta-feira e tudo se transforma, menos as  tantas pessoas restritas. Hoje é quarta-feira de mais algum ano qualquer de vidas a mais em um planeta destruído.
Pessimismo não, realismo nem tanto, algumas vezes prefiro o fantasioso, mas por circunstâncias de humanidade ultrapassada, sou obrigada viver nessa realidade inventada e bem mal contada, muito mal contada.
Hoje é Outubro de novo, tudo se repete. Hoje é mais um Outubro que caminho dentre as mentiras que me foram contadas, sugadas desde as primeiras luzes que embaçaram minha visão sem noção de mundo. Um outro que meus passos estão em meio as verdades em que me arremessei, mas que ninguém remediou e me calo. 
É o caminho, eu apago. 
Mentes surradas, vozes pressionadas, permissão em se manter calada.
Grito no vazio.


sexta-feira, 3 de agosto de 2012


Alice,

Me sinto mais sozinho do que nunca,  queria voltar para vocês, para o Ale, nossa casa, as festas, nossa rede e o céu limpo.
Aqui é madrugada e está mais gelado que o normal, ou eu que não me acostumei, coloquei duas calças e uns três casacos e nem assim, tem um cobertor nos meus ombros e um litro de conhaque com sabor de nada em minhas mãos, venta forte e as árvores tremem, meu corpo também. Da janela vejo a praça fria, coberta de geada, dois discutem em berros, a luz do poste não para de piscar, tem uma menina sentada no banco preto com as mãos no rosto, chorando agudo e por alguns segundos senti dor por ela, mas olhei bem para mim... Eles poderiam silenciar, bastaria minha insônia. 
Os últimos dias estão bem mais vazios que o normal, sinto falta de cada minuto com Jodie, me apaixonei ou foi apenas carência,  nunca te disse, mas a distância do Brasil me causa espanto, me sinto incompleto, não sei que piração foi essa de deixar todos em casa, não sei o que busco aqui, mas você conhece a minha inconstância.
Mal durmo, trabalho muito, hoje foi minha folga, grande merda, o tempo não passa mesmo, ao menos no trabalho depois de lavar as privadas mijadas e de gorfo de cerveja sempre encontro alguém, ofereço umas doses, uns baseados e arrumo qualquer tipo de afeto pra mim. A Jodie tem outro ou outra, machuca, é, sei que contei do nosso tipo de relacionamento, mas nunca funcionou, pelo menos para mim. Pensar em cada minuto que ela pode estar em outra cama me faz surtar, o adeus sem palavras me fez  ficar assim, então busco alívio procurando ela em qualquer um, nas prostitutas da Red Light e nos caras do apartamento 74. 
Ela não é a mulher que qualquer um desejaria, mas eu quero, acho que foram os coturnos sujos, a calça rasgada, aquele cabelo mal cortado, o rosto de quem acordou agora, o óculos torto, a velocidade das palavras que acompanha sua inteligência, meu lado sapiosexual.
Há umas horas escutei ela chamando meu nome  e apertando a campainha enquanto tentava parar de me drogar nesse quarto vazio, corri até a porta e olhei no olho mágico, ela estava nua, eu juro, me chamando. Arrumei o casaco, abri com rapidez e nada, apenas as portas fechadas, me reclinei no batente apoiando a cabeça até cair, chorando, só, de novo. O Ian do 74 desceu do elevador e me arremessou umas palavras, arrastou meu corpo até o carpete vermelho da sala, colocou um cigarro na minha boca e deitou do meu lado, mas depois de meus soluços e do silêncio anexado as frases ignoradas, ele me deixou aqui. Depois vieram os outros, abriram a porta e falaram rápido demais para que eu pudesse entender, tentaram me fazer comer e depois prepararam mais um. Irônica essa tentativa de ajuda? Me acostumei, aliás o costume é corriqueiro nesses dias repetidos. Não vi ninguém saindo, estava escuro o suficiente para que não enxergasse nem ouvisse nada. Acordei coberto, os berros na praça soam alto aqui, sentei na beirada da cama pedindo que o tempo ficasse curto.
Veja bem, quanta fraqueza tenho guardado em mim, me falta vida e principalmente coragem para voltar e pedir mais um pouco de colo e algumas horas de conforto. O olhar dela antes de sair por essa porta, a dor dentro de mim, mal consigo abrir meus olhos e respirar com facilidade, sei que ela quer voltar, eu sei Alice.

T.

sábado, 30 de junho de 2012

Díspar


    Ser humano é ser ela, ele, elas, eles.  


De quem é a culpa se agem de maneira que a fizeram ser e se quer conseguem subverter uma ordem de seres que se gabam por tantos fazeres, por fim inúteis, por caminhar em duas patas, enfim tão iguais a tantos animais?
Não enxergam que nutrem um vida em vão deixando-se tratar com submissão, esse luto e terror internos são tão bem camuflados por quem leva seus dias de mentiras disfarçadas, que tentam preencher o vazio dessas mentes desfocadas com ideias pré formuladas.
A culpa é de quem se suas bases são a próxima coleção, vida padrão, status imundo, as superfícies particulares que tentam atingir um protótipo tão decadente? 
O espelho esconde suas verdades,  seus corpos não deveriam abrigar uma mudança que grita mas permanece renegada em um canto.






sexta-feira, 1 de junho de 2012

Humanoides

Escrevem no asfalto em giz branco todas as suas metades, mas nenhum ninguém tem olhos que enxergam, acaba transformado tudo em  zero, mal se mistura com o vento, ficam soltas, vazias, sem ar. Tamanha convicção que as mãos ficam em punho, resistência, a boca trancada, não adiantaria clamar e as outras visões embaçadas.
Quantos passam e se quer avistam estes que desenham veraz nos muros e derramam óleo quente em tantas vidas análogas, é que o relógio tem pressa, a carne exposta não incomoda nem os faz mudar e a queimadura faz parte do dia de quem permanece de tapa olho. Existem tantas mentiras provocadas por quem tem intenção, absorvidas por tantos que passam os dias em vão e mostrar a verdade é  demência , é confusão.


- Me diz, quanto é que vale sua ilusão? 

terça-feira, 1 de maio de 2012

Pra falar de amor

Amanhã quero me lembrar da nossa cama que hoje fiquei até mais tarde, de quando abri meus olhos e você permanecia dormindo com a tranquilidade de quem sonha no silêncio.
E não vou esquecer de todas as vezes que me cala com sua boca quando disparo falar tantas besteiras do meu dia, porque no fundo é isso que quero quando coloco seu corpo abraçado com o meu. Das cócegas que me faz e como se contorce quando aperto sua barriga no nosso quarto de refúgio de tantas horas na madrugada. Sua braveza de braços cruzados, rosto virado chamando meu nome com todas as letras quando tentamos nos manter em distância durante minutos infinitos, enquanto minha mão procura sua pele, seu rosto procura meu colo e nossos braços se encontram, sem mais palavras. Dos seus pés nos meus, das roupas jogadas, nossa boca grudada, seu suspiro antes de fechar os olhos e tirar os óculos. Das vezes que me pega mais cedo para aula e me olha com sorriso de lado e da play nas nossas músicas, vai embora com pressa e fico parada esperando dar meia volta e me pedir para entrar, que será mais cinco minutos, temos a vida inteira.
Hoje lembro de todas as vezes que senti raiva porque não entendia nada e ficava feito menina chorando trancada, mas que na verdade sempre gostei da sua mente de incógnita e das nossas mentiras tão bem contadas. E permaneço aqui, sonhando vidrada, pois meu amor tem lugar de repouso.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Enquanto crescem


Acordar e respirar para atingir o  indefinido, suportar entranhas regadas de incomodo com o discurso de indivíduos dotados de inteligência inutilizada e linguagem articulada. Vigiados pelo tempo que não larga,  um sujeito e qualquer outro caminha ao meu lado, sonhadores do mundo que não cessa.
Hoje conto uma verdade, dessas que muitos sabem e outros nunca compreendem...alguns não seguem o fluxo de  olhares encadeados em uma direção, ultrapassam barreiras geradas, arrancam o cabresto e por fim no universo de seres tão iguais aparentam pensamento de desordem, com placas em branco, sem destino nem banco de descanso. Não, não é confusão, só não compartilham ilusão.
Mudam apesar de constantemente impostos a ser, ter e fazer de maneira imperceptível desde que começam aprender, em geral violentamente sujeitos a pensar como todos, uma massa cefálica unificada tão individualista.


-Veja bem, essa é a verdadeira evolução.




terça-feira, 20 de março de 2012

É triste, a roda é muda





Hoje no fim da tarde bebíamos em um bar qualquer ao lado da Praça Ramos, entre risadas de bêbados, próximo de prostitutas escondidas na Boca do Lixo que começavam ocupar becos e vielas. Era praxe dos nossos domingos, rodávamos pelas ruas do centro da cidade sem destino.
Conversas profundas somadas a distância de tanta gente igual, que me causam um alívio costumeiro. Anoiteceu e resolvemos seguir em direção à baixa Augusta, mas Mirit não se levantou. Ela poderia me contar onde vai quando deixa o olhar assim, longe, fixado entre fumaça e copos , rodeada de tantas pessoas de lenda. 
Observo a face da menina estática, com atitude de quem cresceu cedo demais. Não acredita em contos, nem enxerga em cantos o Deus dos fracos. Olhos claros, nem sempre, é que mudam de cor, tão lindos, mas subentendidos, incógnita.
Fuma com volúpia, debate com firmeza. Politica, analítica, escritora cheia de mudança. Constantemente cansada, subitamente revoltada. Efervescente social, provocadora da real, apela por mudança, sofre com desencanto pela vida. Anda com frieza nos corredores de julgamento, e permanece livre de tantas maneiras.
Melancolia sem fim que me domina, poucos sorrisos mas puros. Minimas palavras que valem por um discurso e desmorona qualquer suposto intelectual.


- Mirit, levanta.


Um silêncio propagado com olhar de quem procura existência efetiva me atingiu com violência.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Vida 1: Clama o padê 


Passou entre calçadas jogadas, corpos quebrados e nada fez. Engraçado pensar no descaso desse olhar, sendo que  estiveram congelados com o susto de palavras imundas reveladas quando era ainda inocente, e hoje anda como se tudo estivesse bem, não se importa.
Houve um tempo que foi oposto, agora suposto. Era revolta, nesta hora pouco faz.
O menino cresceu e estagnou, Síndrome do Peter Pan? Nada, inaceitação da realidade. Acontece que não manteve-se criança no sentido puro ou bom, virou homem no corpo e sexualmente, obstruído em drogas leves, pesadas, cheias de gargalhadas. Então encontra-se a explicação para os olhos ágeis mas fundos, mordido. E permanece com atitude de quem brincava com carrinhos.
Seu tempo é vazado, cada minuto narciso, vingativo, tão rápido que esquece de viver.
Rodopia no centro velho de São Paulo, parece uma daquelas historias de filmes de 60 ou 70 cheios de descobertas, mas esqueça o atrativo das telas, o filho da mamãe, paga, consome, vira os olhinhos.
De Rua Augusta à República, é o canto de refúgio, vai de leste a sul, de norte a centro, ocupado com fel na garganta.
Um, mais um, mais dois, mais. Desce um, com gelo. Prepara, prepara três.
Joga sete, tenta mais uma vida, que esta você perdeu.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Quando percebe o desgosto do gasto

"Disfarça que não tem tamanho
Nem foco, nem brilho, nem alma, nem cor..."

Os dias ensinam que nem tudo é visível e nos arrastam com esse vento abafado da cidade iluminada, nessa noites de ilusão quantos andam em espaços de telas em branco?
As avenidas feitas de filmes mudos, nítidas na  madrugada, conturbadas pelo dia.
E permanecemos estagnados,  mas o sangue rápido, transcendente.
Seres com fel no olhar, fúria no falar, maldade replicada. Quantos erros repetidos, quanta gente sem nada.
Humanidade em escala preto e branco, vergonha retratada aos poucos, mentiras em seus devidos lugares.
Conformistas surrados, maniacos alucinados, zumbis de São Paulo, mortos no Mundo.
Meia dúzia de questionadores e bocas caladas, artistas,  humanos que denunciam.

- Nossas expressões em arte como refúgio dos que enxergam através dos muros, falas e vidas formuladas.
- O que pensamos? Viva nosso cérebro por nada!
- Viva nosso refúgio em vão !
- Mas entre mares e espinhos, os gritos podem chegar aos ouvidos dos que querem.


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Meu palco



De frente, olhar no espelho, trêmulos vinhos encaram o reflexo dizendo quem deve se tornar, deixar de ser, o que almejar.
As pernas bambeiam e tentam seguir espaços distintos, forças da vontade que são obstruídos em um mundo que tudo é pronto, fácil, mas profundamente é aparência, não tão simples, a sabedoria é comprada e o tempo é ilusão. Opções que cercam e mentem.
Sentar confortavelmente no sofá e imaginar o que poderia ser, mas não é. Sentir a força virando lama, revoltar-se em vão, lembrar que inclusive a inteligência é manipulada e vale caro.
Então sonhar para poder crer, imaginar para mudar, mas levantar e respirar fundo. Gritar as verdades, as nossas. 
Viver em busca, ou em nada. Sorrir, contudo há sentido. Voltar, rever a imagem do passado, lembrar os sonhos da inocência, o sussurro leve da menina que cantava:
- "Saiba o caminho é o fim mais que chegar."
E viver e viver e viver...








domingo, 15 de janeiro de 2012

Home is wherever I'm with you

Apaguem as horas que entristecem o riso limpo, pois chorei quando escutei nosso amor tão de perto.
Realidades inventadas para admirar o submerso em nós.
Ela que preenche o vazio do estômago e o efeito de calafrios na nuca, dos sorrisos sem fim das tardes sem graça.
Esses olhos borrados e arrastados são mais que lágrimas, desgaste de amantes, sentimentos entrelaçados e que desaprenderam caminhar sozinhos.
Sem desespero, nos acostumamos a pertencer como um só, corpos unidos, mentes em conexão.
Tão sua que me perco imaginando o labirinto que é seguir sem te ter, sussurro:


- Me leve onde estiver.