quarta-feira, 9 de julho de 2014

Foi na noite que descobriu o colo nu, esse sexo vetado.
Se ao menos tivesse afora questões de uma liberdade pouco executável.
Murros no seu eu - surrou  mentiras narradas - selou os muros do seu eu.
Que esse corpo não é homem invertido, criada e feita.
Quase insuportável por todos os termos comuns, por tantas ofensas.
Assim, agora habita.
A todo tempo que te pedem medida, não foge, se ergue.
Não se faz des-pensar.
Que a recusa seja presente em torno de tanto deles sobre nós.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

T.

Todas as bocas que tocaram seu rosto, cada segredo destilado no tempo de quem acreditou sem medo, hoje são nada, nostalgia de quem esqueceu de amar. Sei que teu corpo abriga além de restos de nicotina e sonos fracos, um terço de rancor e angustia por cada um que lhe deixou sem chão.
O amargo te cai bem e agora, cada qual que você trocou por afeto efêmero nessas ruas da nossa cidade caída, de lábios que te encostaram por satisfação comprada, por tanto, sei que sente e te culpa nesse período de solidão. Ser só é assim, bem sei.
Cada madrugada que acordo de olhos arregalados no meu suor noturno, me sinto menos que a anterior. Procuro vocês dois nas camas vazias do meu lado, jogo o braço de olhos fechados, tento encontrar alguma sobra no meu travesseiro. Me lembro quando culpou a moral imposta dentro desse caos, sem saber que nada tinha com isso, era só amar com entranhas a quem lhe deu o minimo, como nós.
Fico aqui e a mim as imagens são insuportáveis, quase projetadas no teto rachado do corredor e do nosso quarto e penso no seu medo, no meu medo, esse que nos faz em prantos quando o peito afunda e o ar quase acaba. Ele também foi embora, te conto já que não se importou em saber, não suportou olhar seus desenhos na parede da sala, nem se sentar ao meu lado no sofá. Perdi as contas de quantas vezes tentamos mudar a posição dos móveis, jogar roupas suas aos poucos fora, esconder as fotos na garagem com panos velhos, suas mentiras não nos deixaram seguir. E muito mudou desde aquele dia, somos outros agora.
Se hoje me entrego a tantos é por ter amado demais e me cuidado de menos. Em cada abraço um pouco de afeto, busco em cada canto.
Me maltrata aqui de longe quando escreve assim, me quebra em fagulhas não poder estar ai, mesmo depois de tanto.


Sinto muito por você.
Alice

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Alice,

Hoje senti tudo rasgar forte do lado de cá, mas me inclinei para o alívio que é corriqueiro depois da dor. Nada mais sereno nem menos que real e a parte de mim, extrai todo amor que poderia.
Noites em claro passaram, deixei as portas encostadas no apartamento, esperei um, me ofereceu um tipo novo que me entreguei em troca de algumas moedas baratas. Invadiram  outros e cada qual que me tocava ansiava que fosse ela. Foi quando veio, depois de dias sumir, seguida de lábios espalhados por bocas que prometeu não amar, assim como não fiz a nenhum deles. Sorriu abrasada, colou os dedos na minha nuca, proferiu saudade.
Em cada  canto de amantes todo beijo é  passante, então  perto é o suficiente e me faço assim, uma mentira, exatamente o que alguém como eu precisa.
Surgir imerso no sentimento vago, ultrapassado, é obscuro, é aflito. Sinto que tentei como se fosse pouco, como fosse nada, mas Jodie arrancou meu sangue com a mandíbula. 
E a quis como nenhuma outra. 
Pela manhã arranhada, sufoco as minhas verdades em troca de nulidades e deposito nela toda perspectiva de que o amor há de curar qualquer pranto.
Diria você, se ao menos tivesse aqui, paixão nada cura, só contempla o vazio da existência.

Sinto pela nossa distância
T.

Gostos e toques amargos, insípidos, mal arranjados.
Suores vagos, desperdiçados com movimentos alternados entre o comum e o nada.
Jogo perdido para os grandes de mãos orquestradas.
Santos pedidos nas casas de tantas pernas fadigadas, dos dedos calejados, rostos enrugados.
Sonos passados de faca a tiro.
O solo roubado, vida contrabandeada, o corpo flagelado.
Passos andados inverso. Verso. Inverso de mim.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Sorri na manhã quando encaixou o corpo do meu lado.
E a paz me cai bem no seu abraço.  
É, só é, por não ter sido pressa. Sereno.
Ajusto aqui mais perto afeto, risos disparados e domingos enfeitados. 


quinta-feira, 24 de abril de 2014

Me disseram que a vida é bela, trapaça, é bonita quando quer e a quem a interessar. Aos de existência miserável, nada. É baixa por arrancar sorrisos doídos em meio ao barulho impenetrável dos que vivem no topo. 
Tenho uma alegria, ou metade disso, mas a grosso modo a mente agoniza sozinha. Era fácil quando os santos ouviam nossos pedidos. Sinto muito por nós, sinto muito por você, sinto muito e é por tal que não anulo o anulável como os demais de cabeças retidas. Assim corro, mal durmo e me alimento dos restos dessas escolhas forçadas. 
Se me foi tirado o rosto iluminado, é porque viver nessa cidade é não viver. Fazemos parte do medo da faceta suja do que exaltam -  e nós absorvemos por osmose. Sei que vou aguentar calada mesmo com a mente surrada e com cada pedaço oco. Vou sorrir torto, gargalhar sem esperar nada e fingir que aqui nada é bagunça e meu pensamento não é feito de malha embaraçada. E esses corpos continuarão inertes a qualquer agressão, mas por dentro gritam toda raiva engasgada.
Tem dias que o ar é denso e a vontade de levantar é falsa, nesses estalos quero colo e cama, mas me dou conta que crescer pede força, e essa me falta. Uma mão para dividir o peso das fases erradas.
A calma é efêmera, me faz desasosegar em falhas de minutos, caminha longe e não lembro quando esqueci o que era ter um pouco aqui dentro. Deixa fel socado esófago abaixo e fico imersa em contradição por querer ser menos eu em algumas horas do ano. Não posso ser mais outra e menos eu. Não posso.
Pedaços mal fixados nessas pessoas uníssonas, sobrecarregadas como eu, como você, sem culpa por passos repetidos. Esses modos são doentios. Sei que adoeço junto e por adoecer me maltrato quando não reajo ao que não posso, ou posso, ceder. 
Nos sentamos lado a lado na sala de domingo e esperamos um respingo, um algo, que preencha esse vazio. E que assim eu possa sorrir aliviada, um riso de verdade, que não me divida entre dor e melancolia exacerbada, porque no fundo existe contentamento encoberto por sofrimento precoce de uma pessoa cansada.


sábado, 15 de março de 2014

Alto é o som desses torpes que não comem calados.
Estômago acelera e olhos caem ao chão. Minha boca sente pressa. 
Mãos embrulham, corpo transpira, garganta gelifica.
Mediocridade adoece mais fundo que pontada de faca.
Dor choca entranhas, corroi a mente, sufoca o pulso.
Agrura poda vontades, pesar estagna. 
A espera se torna indiferente dentro da hora que passa em olhos vidrados, arrepia a fala imobilizada.
É pela vida engasgada, contida.
Me doi aqui.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Soube que é fria como textura da pele de gente morta. Nunca toquei na pele de defunto, só da tartaruga da infância que sempre foi gelada e fedida - ficava na água verde - e ele não limpava o aquário há semanas antes da morte súbita da tartaruga ilegal que morava em casa. O Ibama não bateu lá e hoje sou vegetariana. Falsa.
Nada - até então- foi mais frio que o dia da morte dele que eu amava. Era praia no dia um, verão - sarcástico - e eu ainda sorria fácil com os olhos. Entrou luz pelos espaços da veneziana da edicula, me contorci no colchão no chão e escutei vozes afobadas - abafadas. Acorda ela e diz que é pro café. Chegaram na porta da casa - na lembrança truncada as paredes eram tão cinzas quanto o dia- tudo que eu queria era dormir. A madrugada foi bem longa - bebia precoce e fumava na encolha. Nesse tempo sequer desconfiava que a estrada tem  fenda de sobra. Caminhei pelo corredor estreito do quintal e entrei na cozinha descalça, mesa do café posta e ninguém - quase desconhecidos - estava sentado em qualquer cadeira comendo pão e sorrindo no ano novo. Faces derretidas com um fundo de pena sem jeito ficaram espalhadas pelas poltronas e em um pequeno sofá da sala repleta de maresia. E pela janela - atrapalhada pelas grades - eu a vi ali fora, fazia sabe lá o que, com nem um terço da minha família recostada no carro. E veio um turbilhão na minha mente malacaba - aconteceu com ele - eu sabia. A última vez que o vi foi na entrada do prédio em São Paulo. Magro - as roupas chegaram largas e amassadas, o cabelo baixinho e enrolado com entradas de idade e barba mal feita -  feição apática,  sem ar - tirou o meu sossego. Mal sabíamos o que dizer. Vou ficar bem. Fica bem, eu te amo. E ele saiu pela porta de vidro enquanto eu chorava. Não chora,  fico bem, prometo. Solucei engasgada - medo - nunca olhei tão profundo sem enxergar nada de esperança naqueles olhos que costumavam carregar um tanto de conforto junto com os braços largos e o corpo desajeitado. E ela entrou com um olhar que me destilou lágrimas junto com o melhor abraço que conheço - o meu abraço de todas as manhãs - e não sabia como dizer. Ele agora está no colo de Deus. O deus - esse que a fé me quebrou e que a história ensinou - minha filha, poderoso mesmo é a meia duzia que suga a humanidade. Quem sabe exista uma Deusa - nós mesmas -  quem sabe. Ele está morto - óbvio - e eu sabia a quem o pronome se referia. E não foi súbita igual a tartaruga de água suja - estava tudo numa especie de imundice - e que culpa tem quem se quer livre - e saiu da submersão turva.
Descobri dias lentos - desvendei tanto que hoje se faz nada - tanta metamorfose - a existência é insensível.
É gélida como pele de gente morta.


terça-feira, 11 de fevereiro de 2014





Teimo que posso ser mais que a metade. Vivo de sonhar. 
E essas tantas bocas enfermas disseram que eu tome cuidado e não caia
Que sobressaia e não erre. 
E se errar que me vire.
Sobrevivo e respiro todo tempo rotineiro. 

 - E eu só queria ser serena.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Escuta.
Vi seu rosto amargo antes de ir. Pouco antes do final de tarde. Era o limite do começo do fim.
Sobre o amor. Beijos no pescoço. Dedos nos fios de cabelo. Sorrisos nos feixes de silêncio.
Seus braços no meu corpo. Os abraços de luz baixa. No meu colo seu rosto.
Sua boca fraqueja em meio.  Engano.  Sentimento vago. 
A mentira te barra. O afeto te assusta. Insegura. 

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Fraqueza reage sob o peito em vista do que disfarço. Surrados.
Insatisfação satisfatória degenera dias e perfura personas que se acomodam nos vagões tintos. 
Personas vastas. Acabadas. Visão opaca.
Viver em questão. Servos rotineiros. Sorridentes apunhalados por trás.
Aliviar essa dor. Dor por não ter chão. Fome para quem tem sede de ódio. Perfura fundo.

Sobre-viver essa degradação cinza. E nos rebatem. Nos abatem. 

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Amargo quando destila ódio sobre meus poemas fracos, tatuados nos poros desabrigados do meu corpo.
Seria fácil se não sufocasse e até belo se não arranhasse cada nervo, se me permitisse.
Desacelerei o medo por medo de ainda sentir e joguei com as suas verdades. 
Nos quebramos na estrada da liberdade da juventude ultrapassada.
Sorri quando calaram minha boca. Chorei só. Quebramos nossas mãos entrelaçadas.
Que seja fraca sua fala ao me negar e basta quando desculpar meu rancor.

-Quanto doí saber? Quando doí saber.

domingo, 1 de dezembro de 2013


Como de costume o covarde segura o medo na entranha estranha da saudade
E fica estagnado com pavor entalado goela abaixo
Ainda assim bem provável que seja negação
Que ouça em vão
Ou o amor rogue mais
Como de praxe peça remissão

        - Não vou sem você não


De pestana cerrada surge com nada de paixão

E deixa esperar quem ama 



sexta-feira, 22 de novembro de 2013

É meu desejo quando sou sua e permaneço minha
Ensina o amor vir assim, devagar
Escuta de perto a voz que esparge 

- Quero você

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Arrancou minha garganta em lágrimas com palavras malacabadas.
Acordei engasgada, metade saciada, com as entranhas vazias, o sentimento rasgado. 
Não bate meio-dia, não me da mais meia-hora, não escuto meia-verdade da metade de nada.

domingo, 20 de outubro de 2013


Dissonante amantes não amados.
 Emergimos no sussurro de apaixonados.
Desviei o olhar de quem me chama, seguimos as vozes de aconchego.
Engano na hora corrida e o corpo se afoga, um tempo, dois, volta.
Levantei da nossa cama, corri só.

 Sozinha não se ama.

sábado, 19 de outubro de 2013

E você sempre espera o outro dia né Zé, pra ver se a vida muda e se o dia vem ameno, mas fica tudo igual, não é, Zé? 
Então pede mais um tempo, quem sabe amanhã vem transformado de ontem ou melhor que hoje, só, mesmo
só, cuidado, ouvi que hoje é pleonasmo. Hoje nada tem de conciso. É sequência do que foi. Amanhã é ordem de hoje que virou ontem. Ontem antecedeu hoje e é resultado do amanhã do hoje de antes
Antes de você sorrir, Zé. 





domingo, 22 de setembro de 2013

Seu corpo esteve afogado, ainda que com os pés apoiados, a cada passo, demorado.
Existem lamentos, posso ouvir na boca que cala, que sorri amargo e gargalha sem força.
Escuto em cada canto a infelicidade daqueles que buscam e chegam em nada. Em cada rosto.
Temos e somos nossos medos.
Podemos e devemos segredos.

- Sorrir no dia pra calar.

sábado, 27 de julho de 2013

Preciso dessa metade de verdade, sugiro um pouco de fragilidade, um punhado do que esquecem.
Prefiro explicar o que não é necessário, sugar o mundo através dos olhos marejados, surgir sem ninguém.
Recuso o tempo de contradição dos dias lentos de quem se levanta e repousa na mesma posição.






quinta-feira, 11 de abril de 2013

Difícil escutar na cidade que não cala
Impossível se levantar no dia que me acaba
Sofrido não ser escutada na vida que ignora
Sufocante adormecer nos dias de batalha


segunda-feira, 11 de março de 2013

- Vinte minutos, vinte anos
  Quero vida real


Não era o que diria, mas disse.
Nem o que pudesse sentir, senti. 
Não era o que eu faria e fiz.
Para que tanto enfim, no fim, seja sim.



quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Olhar, através de si ou de ti.
Hoje vivi todo nervo do meu corpo, cada fragmento prolixo, quantos mais e quantos quais.
Universo que  expande na abertura do olho, na gota da pupila, na velocidade das mãos.
Chama, clama por vida.  
Chora por morte, mas suspende o riso real nos dias de sempre.
Hoje ouço, espero e suspiro fadigada, com fel e monotonia.  
Deito e me sinto viva, me levanto e me sinto sem ou sigo e me sinto por menos.
Ouvidos impuros, rosto maltrapido, gestos bruscos, mas ainda sinto. 
Distingo. Enxergo. Penso.
E é o princípio.
Por tanto eu segurava forte enquanto o seu corpo desabava em cima do meu
Por tudo, sorriamos entre pausas de silêncio, meu olho parado em cima do seu, sua mão calada na minha
Por quanto o sofá rasgado, luz fraca e eu, só eu só



quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Hoje é quarta-feira e essa mediocridade me enoja. Hoje é quarta-feira e tudo se transforma, menos as  tantas pessoas restritas. Hoje é quarta-feira de mais algum ano qualquer de vidas a mais em um planeta destruído.
Pessimismo não, realismo nem tanto, algumas vezes prefiro o fantasioso, mas por circunstâncias de humanidade ultrapassada, sou obrigada viver nessa realidade inventada e bem mal contada, muito mal contada.
Hoje é Outubro de novo, tudo se repete. Hoje é mais um Outubro que caminho dentre as mentiras que me foram contadas, sugadas desde as primeiras luzes que embaçaram minha visão sem noção de mundo. Um outro que meus passos estão em meio as verdades em que me arremessei, mas que ninguém remediou e me calo. 
É o caminho, eu apago. 
Mentes surradas, vozes pressionadas, permissão em se manter calada.
Grito no vazio.


sexta-feira, 3 de agosto de 2012


Alice,

Me sinto mais sozinho do que nunca,  queria voltar para vocês, para o Ale, nossa casa, as festas, nossa rede e o céu limpo.
Aqui é madrugada e está mais gelado que o normal, ou eu que não me acostumei, coloquei duas calças e uns três casacos e nem assim, tem um cobertor nos meus ombros e um litro de conhaque com sabor de nada em minhas mãos, venta forte e as árvores tremem, meu corpo também. Da janela vejo a praça fria, coberta de geada, dois discutem em berros, a luz do poste não para de piscar, tem uma menina sentada no banco preto com as mãos no rosto, chorando agudo e por alguns segundos senti dor por ela, mas olhei bem para mim... Eles poderiam silenciar, bastaria minha insônia. 
Os últimos dias estão bem mais vazios que o normal, sinto falta de cada minuto com Jodie, me apaixonei ou foi apenas carência,  nunca te disse, mas a distância do Brasil me causa espanto, me sinto incompleto, não sei que piração foi essa de deixar todos em casa, não sei o que busco aqui, mas você conhece a minha inconstância.
Mal durmo, trabalho muito, hoje foi minha folga, grande merda, o tempo não passa mesmo, ao menos no trabalho depois de lavar as privadas mijadas e de gorfo de cerveja sempre encontro alguém, ofereço umas doses, uns baseados e arrumo qualquer tipo de afeto pra mim. A Jodie tem outro ou outra, machuca, é, sei que contei do nosso tipo de relacionamento, mas nunca funcionou, pelo menos para mim. Pensar em cada minuto que ela pode estar em outra cama me faz surtar, o adeus sem palavras me fez  ficar assim, então busco alívio procurando ela em qualquer um, nas prostitutas da Red Light e nos caras do apartamento 74. 
Ela não é a mulher que qualquer um desejaria, mas eu quero, acho que foram os coturnos sujos, a calça rasgada, aquele cabelo mal cortado, o rosto de quem acordou agora, o óculos torto, a velocidade das palavras que acompanha sua inteligência, meu lado sapiosexual.
Há umas horas escutei ela chamando meu nome  e apertando a campainha enquanto tentava parar de me drogar nesse quarto vazio, corri até a porta e olhei no olho mágico, ela estava nua, eu juro, me chamando. Arrumei o casaco, abri com rapidez e nada, apenas as portas fechadas, me reclinei no batente apoiando a cabeça até cair, chorando, só, de novo. O Ian do 74 desceu do elevador e me arremessou umas palavras, arrastou meu corpo até o carpete vermelho da sala, colocou um cigarro na minha boca e deitou do meu lado, mas depois de meus soluços e do silêncio anexado as frases ignoradas, ele me deixou aqui. Depois vieram os outros, abriram a porta e falaram rápido demais para que eu pudesse entender, tentaram me fazer comer e depois prepararam mais um. Irônica essa tentativa de ajuda? Me acostumei, aliás o costume é corriqueiro nesses dias repetidos. Não vi ninguém saindo, estava escuro o suficiente para que não enxergasse nem ouvisse nada. Acordei coberto, os berros na praça soam alto aqui, sentei na beirada da cama pedindo que o tempo ficasse curto.
Veja bem, quanta fraqueza tenho guardado em mim, me falta vida e principalmente coragem para voltar e pedir mais um pouco de colo e algumas horas de conforto. O olhar dela antes de sair por essa porta, a dor dentro de mim, mal consigo abrir meus olhos e respirar com facilidade, sei que ela quer voltar, eu sei Alice.

T.

sábado, 30 de junho de 2012

Díspar


    Ser humano é ser ela, ele, elas, eles.  


De quem é a culpa se agem de maneira que a fizeram ser e se quer conseguem subverter uma ordem de seres que se gabam por tantos fazeres, por fim inúteis, por caminhar em duas patas, enfim tão iguais a tantos animais?
Não enxergam que nutrem um vida em vão deixando-se tratar com submissão, esse luto e terror internos são tão bem camuflados por quem leva seus dias de mentiras disfarçadas, que tentam preencher o vazio dessas mentes desfocadas com ideias pré formuladas.
A culpa é de quem se suas bases são a próxima coleção, vida padrão, status imundo, as superfícies particulares que tentam atingir um protótipo tão decadente? 
O espelho esconde suas verdades,  seus corpos não deveriam abrigar uma mudança que grita mas permanece renegada em um canto.






sexta-feira, 1 de junho de 2012

Humanoides

Escrevem no asfalto em giz branco todas as suas metades, mas nenhum ninguém tem olhos que enxergam, acaba transformado tudo em  zero, mal se mistura com o vento, ficam soltas, vazias, sem ar. Tamanha convicção que as mãos ficam em punho, resistência, a boca trancada, não adiantaria clamar e as outras visões embaçadas.
Quantos passam e se quer avistam estes que desenham veraz nos muros e derramam óleo quente em tantas vidas análogas, é que o relógio tem pressa, a carne exposta não incomoda nem os faz mudar e a queimadura faz parte do dia de quem permanece de tapa olho. Existem tantas mentiras provocadas por quem tem intenção, absorvidas por tantos que passam os dias em vão e mostrar a verdade é  demência , é confusão.


- Me diz, quanto é que vale sua ilusão? 

terça-feira, 1 de maio de 2012

Pra falar de amor

Amanhã quero me lembrar da nossa cama que hoje fiquei até mais tarde, de quando abri meus olhos e você permanecia dormindo com a tranquilidade de quem sonha no silêncio.
E não vou esquecer de todas as vezes que me cala com sua boca quando disparo falar tantas besteiras do meu dia, porque no fundo é isso que quero quando coloco seu corpo abraçado com o meu. Das cócegas que me faz e como se contorce quando aperto sua barriga no nosso quarto de refúgio de tantas horas na madrugada. Sua braveza de braços cruzados, rosto virado chamando meu nome com todas as letras quando tentamos nos manter em distância durante minutos infinitos, enquanto minha mão procura sua pele, seu rosto procura meu colo e nossos braços se encontram, sem mais palavras. Dos seus pés nos meus, das roupas jogadas, nossa boca grudada, seu suspiro antes de fechar os olhos e tirar os óculos. Das vezes que me pega mais cedo para aula e me olha com sorriso de lado e da play nas nossas músicas, vai embora com pressa e fico parada esperando dar meia volta e me pedir para entrar, que será mais cinco minutos, temos a vida inteira.
Hoje lembro de todas as vezes que senti raiva porque não entendia nada e ficava feito menina chorando trancada, mas que na verdade sempre gostei da sua mente de incógnita e das nossas mentiras tão bem contadas. E permaneço aqui, sonhando vidrada, pois meu amor tem lugar de repouso.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Enquanto crescem


Acordar e respirar para atingir o  indefinido, suportar entranhas regadas de incomodo com o discurso de indivíduos dotados de inteligência inutilizada e linguagem articulada. Vigiados pelo tempo que não larga,  um sujeito e qualquer outro caminha ao meu lado, sonhadores do mundo que não cessa.
Hoje conto uma verdade, dessas que muitos sabem e outros nunca compreendem...alguns não seguem o fluxo de  olhares encadeados em uma direção, ultrapassam barreiras geradas, arrancam o cabresto e por fim no universo de seres tão iguais aparentam pensamento de desordem, com placas em branco, sem destino nem banco de descanso. Não, não é confusão, só não compartilham ilusão.
Mudam apesar de constantemente impostos a ser, ter e fazer de maneira imperceptível desde que começam aprender, em geral violentamente sujeitos a pensar como todos, uma massa cefálica unificada tão individualista.


-Veja bem, essa é a verdadeira evolução.




terça-feira, 20 de março de 2012

É triste, a roda é muda





Hoje no fim da tarde bebíamos em um bar qualquer ao lado da Praça Ramos, entre risadas de bêbados, próximo de prostitutas escondidas na Boca do Lixo que começavam ocupar becos e vielas. Era praxe dos nossos domingos, rodávamos pelas ruas do centro da cidade sem destino.
Conversas profundas somadas a distância de tanta gente igual, que me causam um alívio costumeiro. Anoiteceu e resolvemos seguir em direção à baixa Augusta, mas Mirit não se levantou. Ela poderia me contar onde vai quando deixa o olhar assim, longe, fixado entre fumaça e copos , rodeada de tantas pessoas de lenda. 
Observo a face da menina estática, com atitude de quem cresceu cedo demais. Não acredita em contos, nem enxerga em cantos o Deus dos fracos. Olhos claros, nem sempre, é que mudam de cor, tão lindos, mas subentendidos, incógnita.
Fuma com volúpia, debate com firmeza. Politica, analítica, escritora cheia de mudança. Constantemente cansada, subitamente revoltada. Efervescente social, provocadora da real, apela por mudança, sofre com desencanto pela vida. Anda com frieza nos corredores de julgamento, e permanece livre de tantas maneiras.
Melancolia sem fim que me domina, poucos sorrisos mas puros. Minimas palavras que valem por um discurso e desmorona qualquer suposto intelectual.


- Mirit, levanta.


Um silêncio propagado com olhar de quem procura existência efetiva me atingiu com violência.